Aquele que nos fez fugir os levou de mim,me tirou de vocês
Porque tudo é raro agora e meu coração se inquieta no peito
O que era nossa música agora é silencio
A falta do que foi arrancado
Pensei que fosse único o dia em que foram tirados de mim
Dor de parto
Não um parto normal
Nunca os expulsaria do calor de meus braços
Nunca me negaria perceber o ritmo da respiração de vocês enquanto a noite me atravessava
Foi cesárea novamente e éimportante que não se esqueça
Foi através de um c0rte que sangr4 mas precisa se manter anestesiado para que eu não morr4 com a d0r
Eu sobrevivo me suturando
Fechando o vazio do olhar de vocês,do sono tranquilo apertado na nossa cama
O aperto que remontava meu ventre que nutriu e formou seus corações
Me mantenho desperta,minha alma vigia,espera,se despede antes da chegada
Porque se chegam é porque se foram; contra minha vontade e a vontade de vocês
Me sinto como vocês,criança negada de ser ouvida em seu desejo mais íntimo por ser pequena
E é amargo lembrar que sou grande,e m4chuc4 saber me levaram vocês
A força do cOv4rde me constrange,mancha tudo que é belo
Me toma o tempo que deveria ser de contemplar o crescimento puro porque preciso estar desperta,defendendo cada segundo raro
Momento devolvido e tomado num ciclo de m0rte
O ventre que gerou e nutriu agora está frio
O peito que acolheu e nutriu agora dispara
Dói o abandono que vocês sentem de uma mãe que só quer estar perto
Mas vocês não sabem
Dói não saber e não se poder fazer saber
Dói em muitos lugares,sobretudo os que não existem mais
Não há mais placenta,e a água que modelou as suas faces deram lugar a lágrimas quentes e suor frio enquanto atravesso a noite
Não produzo mais alimento porque agora só há fome
E tudo agora se faz raro,e pouco e enorme,e insuportável
Aguardo novamente numa gestação solitária poder parir vocês de volta pra mim
Ju Alexandrina
