Educação que Salva Vidas: Como um Álbum de Figurinhas Está Ensinando Jovens a Combater a Violência
No dia 19 de setembro de 2026, o nosso Grupo de Apoio se reuniu para mais uma troca inspiradora e potente. O encontro, aberto por Gomes Luci, abriu espaço para a professora Roberta Teresa Manica de Lara. Mulher, feminista, mãe e docente da rede pública há 22 anos. Roberta atua no coletivo ecofeminista de Erechim e nos trouxe uma verdadeira aula sobre como transformar o chão da escola em um território de proteção e libertação.
O grande destaque da manhã foi a apresentação de um projeto pedagógico inovador: o álbum de figurinhas da Lei Maria da Penha.

A Origem: Respondendo a um Grito de Socorro Silencioso
A ideia do álbum nasceu em agosto de 2022, motivada por um cenário assustador no retorno pós-pandemia: o aumento drástico na busca de ajuda por estudantes que enfrentavam abusos sexuais e violência doméstica. Roberta relatou que as dinâmicas tradicionais e o Conselho Tutelar não eram suficientes, especialmente após o caso de uma aluna de "família estruturada" que sofria abusos de um parente.
Foi então que um grupo de alunos sugeriu criar um álbum no formato da Copa do Mundo para trabalhar a conscientização no Agosto Lilás. O projeto cresceu de forma orgânica e contou com uma rede de apoio voluntária fundamental para sua validação técnica: a advogada Luía, a psicóloga Monique e a integrante da Patrulha Maria da Penha, Kiane.
O Impacto Real: A Conscientização que Chega em Casa

A dinâmica lúdica de trocar figurinhas extrapolou os muros da escola e chegou às famílias. Roberta compartilhou o emocionante relato de um retorno pedagógico prático: uma mãe, trabalhadora doméstica, procurou a escola após ler o álbum com o filho. Ao ler sobre violência patrimonial nas figurinhas, ela reconheceu que sofria abuso, pois seu marido retinha seu cartão bancário e exercia controle financeiro total, além do histórico de agressões físicas. O material cumpriu seu objetivo, permitindo que as mães identificassem a violência através do material dos filhos.
Inovação, Expansão e Reconhecimento
Completando seis anos, o projeto já está em sua terceira edição.
A versão atual utilizou Inteligência Artificial para gerar ilustrações de mulheres brancas e negras em ambientes variados, mostrando que a violência de gênero atinge todas as classes sociais.
As alunas desenvolveram uma versão em Braille para promover a inclusão.
A iniciativa rendeu premiações nacionais e estaduais, como a Mostra Tec e a SBPC Jovem, levando as alunas para apresentar o trabalho em cidades como Recife, Rio de Janeiro e Curitiba.
O projeto se desdobrou em outras frentes, como a criação do jogo "xadrez defensivo", com regras baseadas na Lei Maria da Penha, e pesquisas científicas para medir a eficácia das atividades.
Material da Palestra: Leve o Álbum para a sua Comunidade!
Roberta reforçou que o álbum possui registro legal, mas ela optou por não comercializá-lo para que a iniciativa possa alcançar mais pessoas. A linguagem foi cuidadosamente pensada para que as crianças compreendam o impacto real da violência. O uso em sala de aula é recomendado para adolescentes de 12 a 15 anos, mas pode ser introduzido no ambiente familiar a partir dos 9 anos. A única regra para a distribuição gratuita do material nas escolas é manter a logomarca do projeto e os devidos créditos às profissionais (Luía e Monique) que revisaram o conteúdo.
Para obter o material, mande uma mensagem para a Ecoar Mulheres ou para o perfil do instagram @elas.naescola!
Ocupar para Transformar
Durante a reunião, Roberta leu o poema "Mulher", de Conceição Evaristo, e nos lembrou de um dado amargo: nas últimas eleições, menos de 20% dos cargos em disputa foram concorridos por mulheres. Essa baixa representatividade reflete a dificuldade de aprovar políticas públicas que nos defendam. Precisamos ocupar esses territórios políticos e sociais!
A conscientização de uma criança hoje evita que ela seja a vítima ou o agressor de amanhã. A escola do seu filho ou da sua comunidade está preparada para falar sobre violência de gênero, ou vamos continuar fingindo que o problema só existe da porta de casa para dentro? O que você vai fazer hoje para levar essa discussão para as salas de aula da sua cidade?



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