Sair da Ilha: Como a união de forças está transformando a rede de proteção à mulher no interior do Pará

No nosso encontro do grupo Ecoar Mulheres, tivemos a honra de receber Talyta Myrelly Holanda, advogada especialista em gênero e direitos humanos. Ela compartilhou a inspiradora realidade e os desafios de Dom Eliseu, um município com cerca de 60 mil habitantes no interior do Pará.
A discussão nos trouxe reflexões profundas sobre como o sistema, muitas vezes, falha com as vítimas, mas também nos encheu de esperança com exemplos práticos de transformação.
O desafio de "Sair da Ilha" e a Revitimização
Talyta introduziu o poderoso conceito de "sair da ilha" para representar a necessidade urgente de superar a atuação isolada das instituições na rede de proteção. Em muitas cidades do interior, os serviços de assistência e segurança operam de forma fragmentada, como "ilhas" que não se comunicam.
Essa falta de integração sistêmica gera uma grave consequência: a revitimização institucional. A mulher que sofre violência é forçada a recontar sua trajetória de dor repetidas vezes — para a Polícia Militar em casa, na delegacia, no hospital, no CREAS e, finalmente, perante o juiz. Além disso, existem enormes barreiras geográficas, como zonas rurais distantes sem policiamento e transporte, que dificultam ainda mais o acesso à justiça e agravam as desigualdades interseccionais.
A Força da Integração e Projetos Transformadores em Dom Eliseu
A mudança no município começou a ganhar força a partir de um esforço conjunto e da liderança ativa do judiciário local, através do magistrado Dr. Cristiano, que passou a priorizar as questões de violência doméstica. Com muita articulação entre prefeitura, secretarias de saúde, educação, assistência social e as polícias, Dom Eliseu implementou iniciativas que servem de modelo:
Patrulha Maria da Penha e Pró Mulher Pará: Programas implementados para oferecer acolhimento de emergência e orientação rápida para as vítimas.
Projeto Reflorescer: Um grupo de apoio e acolhimento voltado para mulheres, focado em criar laços de solidariedade e transmitir informações sobre os seus direitos.
Projeto Ressignificar: Grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica, que visam desconstruir masculinidades hegemônicas e já demonstram baixíssima reincidência.
Educação Preventiva (Projeto Anástase): Ações de letramento de gênero voltadas para adolescentes e crianças, utilizando materiais didáticos e lúdicos como a cartilha em quadrinhos "Maria da Penha em Miúdos".
Projeto Elas no Centro: Um mutirão integrado realizado na Casa da Mulher, reunindo serviços de saúde, nutrição, odontologia, CadÚnico, Polícia Civil e Defensoria Pública em um único local, facilitando o atendimento integral.
Conhecimento que Liberta
O caso de Dom Eliseu evidencia que o enfrentamento à violência de gênero não se faz apenas com leis duras, mas com conhecimento, letramento de gênero e uma rede que se comunique de forma eficaz e humanizada. O sucesso exige vontade institucional e o fim do trabalho isolado.
Como Talyta encerrou sua brilhante exposição, citando a escritora Audre Lorde: "Eu não sou livre enquanto qualquer mulher for prisioneira, mesmo se as correntes delas forem diferentes das minhas".
Acreditamos que o acolhimento cria força, e que a força inspira ações que transformam comunidades. Vamos juntas ecoar amparo e construir cidades mais seguras.
💜 Faça parte dessa rede!
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