O resgate da nossa natureza instintiva: O que aprendemos com as mulheres que correm com os lobos
Muitas vezes, as exigências do dia a dia e os padrões impostos pela sociedade nos distanciam da nossa essência, deixando-nos exaustas, confusas e com um vazio existencial. É nesse processo de domesticação cultural que esquecemos de ouvir a nossa própria intuição e de honrar os nossos ciclos naturais.
No entanto, essa força profunda e selvagem nunca desaparece completamente; ela apenas aguarda o momento de ser despertada.
Recentemente, no Ecoar Mulheres, dedicamos nosso encontro do dia 19 de agosto para mergulhar nesse universo. Com a excelente mediação de Luci Gomes, exploramos a obra Mulheres que correm com os lobos, da psicanalista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés. Conversamos sobre como a reconexão com a nossa natureza instintiva pode ser um caminho de cura e liberdade para mulheres, fortalecendo a nossa rede de apoio nas cidades pequenas.
O que aprendemos com o diálogo
Um dos pontos centrais da nossa reunião foi a desconstrução da ideia da "Mulher Selvagem". Longe de ser um conceito de descontrole ou loucura, a mulher selvagem é aquela que mantém contato profundo com sua intuição, seus instintos e seus ciclos de vida. Historicamente, a cultura patriarcal tentou reprimir essa natureza para exercer controle, rotulando as mulheres de forma negativa.
Durante o encontro, analisamos contos e mitos poderosos que trazem grandes ensinamentos:
La Loba (A mulher que canta com os ossos): A mulher do deserto que recolhe ossos e canta para devolver a vida ao que estava morto. Esse conto nos ensina sobre o resgate de partes nossas esquecidas e de sonhos enterrados, mostrando que a recuperação espiritual é um processo paciente que respeita o tempo da alma.
Barba Azul: Um alerta contundente sobre o perigo de ignorar a nossa intuição, especialmente em relacionamentos. A curiosidade sagrada (representada pela chave proibida) é necessária para ver além das aparências. Nossa mediadora conectou essa reflexão de modo brilhante ao pensamento de Nísia Floresta, educadora feminista brasileira que via na educação a ferramenta essencial para libertar a mulher do controle e da imposição da ignorância.
A Mulher Esqueleto: Originário dos povos Inuit, o conto aborda um amor que enfrenta a morte e as sombras. Aprendemos que o verdadeiro amor não rejeita a dor ou as feridas, mas exige coragem para enxergar e acolher a humanidade do outro por completo, permitindo a vulnerabilidade.
Vassalisa e a Boneca: Através deste mito russo envolvendo a bruxa Baba Iaga, refletimos sobre a importância de confiar na sabedoria interior (representada pela boneca que guia a protagonista) para tomar decisões e navegar pelos desafios da vida adulta.
A nossa intuição como guia e proteção
A principal conclusão do nosso encontro foi a urgência do autoconhecimento e de voltarmos a ouvir a própria voz interior. A obra nos convida a parar de tentar agradar apenas a terceiros e a começarmos a respeitar nossos próprios desejos. Praticar a criatividade — seja escrevendo, pintando, cantando ou dançando — é uma forma de "cantar nossos ossos" e curar nossa alma.
Ao valorizarmos nossa história pessoal e despertarmos essa mulher instintiva, nos tornamos mais autênticas e capazes de proteger a nós mesmas, nossos projetos e nossos sonhos.
Como nos lembrou Luci: ser selvagem não é ser bruta, é ser livre.
Acesso aos materiais de apoio
Para que nossa rede continue informada e possa se aprofundar nessa jornada de autoconhecimento, a mediadora Luci Gomes disponibilizou o material do encontro. Convidamos todas as participantes a acessarem o conteúdo na íntegra:
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