Políticas Públicas e Cidades Pequenas com a Dra. Marianna de Queiroz:
Neste último final de semana de setembro, a Ecoar Mulheres realizou mais um encontro aberto inspirador, focado em tornar nossas cidades lugares mais seguros. O evento recebeu a Dra. Marianna de Queiroz, juíza há 10 anos em Goiás, para um debate profundo sobre violência doméstica, reeducação de agressores e as complexidades do sistema de justiça no interior.
O Despertar para a Realidade da Violência Doméstica
A juíza compartilhou que, no início de sua carreira, era resistente e cética em relação ao feminismo.
Sua percepção mudou ao vivenciar o cotidiano forense, onde notou que, em uma cidade de 15.000 habitantes como Mozarlândia, o maior problema de criminalidade não eram furtos, mas sim a violência doméstica.
Ela percebeu que dar advertências genéricas aos agressores no tribunal era ineficaz, pois eles apenas reproduziam o machismo enraizado.
O mesmo ocorria com as vítimas, que muitas vezes saíam de um relacionamento abusivo e acabavam se envolvendo com outro agressor.
O Projeto "Regando Flores" e a Reeducação Comunitária

A Dra. Marianna compartilhou sua experiência na criação do projeto "Regando Flores" na cidade de Mozarlândia (GO), município com cerca de 15.000 habitantes. Ao perceber que as advertências judiciais genéricas não surtiam efeito e que os agressores não possuíam ferramentas para agir de maneira diferente, ela estruturou um programa focado em combater o machismo na raiz.
Compreendendo que a raiz do problema é o machismo e que a solução exige reeducação, a Dra. Marianna desenvolveu o "Regando Flores", um projeto "guarda-chuva" com diversas frentes.
O projeto englobava a reeducação de homens, apoio estrutural às mulheres, articulação para a construção de uma casa-abrigo e melhoria de transporte para cidades polo.
O programa de reeducação masculina consistia em um ciclo de um ano, com encontros mensais ou quinzenais.
As reuniões mesclavam palestras sobre temas como comunicação não violenta, álcool e drogas, seguidas por "círculos de paz" dirigidos para que os homens pudessem conversar e refletir.
No início, os homens compareciam obrigados e demonstravam forte resistência, alegando que as acusações eram falsas.
Contudo, com o tempo, eles criavam vínculos, paravam de reclamar e, ao final do ciclo (que contava com entrega de certificados), avaliavam o projeto de forma extremamente positiva.
Acesso à Tese de Doutorado da Dra. Marianna sobre o projeto: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/52799
Construção Comunitária e Engajamento de Lideranças
A juíza frisou que projetos sociais não funcionam se soluções prontas forem impostas de cima para baixo; é essencial promover a co-criação.
Ela buscou o apoio de formadores de opinião e instituições locais, realizando reuniões com o Ministério Público, a OAB, o diretor da cadeia, o CRAS e as secretarias de saúde e educação.
Um ponto crucial em cidades do interior foi o envolvimento ativo das igrejas. A Dra. Marianna visitou diversas congregações para explicar o projeto a padres e pastores, utilizando palavras simples para garantir que essas lideranças incentivassem a participação da comunidade.
Comunicação Estratégica e Superação de Barreiras
Para que o projeto tivesse método e credibilidade, ela definiu objetivos claros, cronogramas e utilizou redes sociais, como o Instagram, para a divulgação.
A Dra. Marianna adaptou a linguagem para não afastar o público, optando por chamar o programa de reeducação de "curso para pais em casa" em vez de utilizar nomenclaturas complexas.
Ela recomendou fortemente evitar termos controversos e politizados (como a palavra "feminismo") e focar em conceitos como "igualdade", prevenindo polarizações e concentrando-se no consenso de que agressões contra mulheres são inaceitáveis.
Sobre o público feminino, a juíza relatou grande dificuldade de engajamento devido ao estigma. Intimações presenciais feitas por oficiais de justiça não funcionavam para atrair as vítimas.
Como aprendizado, ela sugeriu que a aproximação das mulheres deve ser feita de forma indireta e em locais onde elas já estão, como por meio de programas sociais (Bolsa Família e CRAS) ou conscientizando profissionais em salões de beleza.
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