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Quando o Sagrado se Torna Profano: Religião e Violência de Gênero nas Cidades Pequenas

31 de ago.
3 min de leitura

No encontro do Grupo de Apoio da Ecoar Mulheres, realizado em 22 de agosto de 2026, fomos conduzidas a uma reflexão profunda sobre a fé, o dogma e a sobrevivência. A reunião foi mediada por Janaína Toscano — mestre em Ciências das Religiões, servidora pública e ativista —, que trouxe a interseção entre sua trajetória de pesquisa e sua vivência pessoal como sobrevivente de sete anos de violência doméstica em uma cidade do interior da Paraíba.


O Lar entre a Proteção e o Perigo


Na tradição judaico-cristã, a casa é frequentemente idealizada como uma "igreja doméstica", um santuário de paz e proteção onde o caos do mundo exterior não entra. Contudo, para milhares de mulheres, o ato de cruzar a porta de casa não representa segurança, mas sim o início da vulnerabilidade.

Estatísticas nacionais mostram a urgência dessa pauta: 62% a 64% dos feminicídios no Brasil ocorrem dentro de casa, e 80% das ocorrências gerais de violência contra a mulher acontecem no ambiente doméstico. Quando a agressão se instala sob o teto familiar, o espaço tido como sagrado profana-se, transformando-se em um labirinto de silêncio e medo.


A Culpa Religiosa e a Leitura de Dogmas


A conversa trouxe à tona o peso de estruturas sociorreligiosas que, em contextos de cidades pequenas, muitas vezes pressionam mulheres a permanecer em ciclos de abuso. Expressões tiradas de contexto, como "a mulher sábia edifica o lar", costumam ser instrumentalizadas para atribuir à mulher a responsabilidade exclusiva pela manutenção da harmonia familiar — mesmo diante de agressões físicas e psicológicas.

Muitas vezes, ao buscar orientação espiritual com lideranças comunitárias, as vítimas encontram recomendações para tolerar a violência sob o pretexto de preservar o sacramento do matrimônio. Essa culpabilização institucional adia o rompimento do ciclo e isola ainda mais quem precisa de ajuda.


O Ponto de Virada: Priorizar a Vida


Um dos momentos marcantes da exposição foi a narrativa de Janaína sobre sua virada de chave. Diante da escalada do sofrimento e do impacto da violência sobre seus filhos, ela buscou o aconselhamento de Frei Cláudio. Ao contrário das pressões comuns, a orientação recebida foi direta e libertadora: "Vá viver. Você não tem nada de errado; a única coisa errada é continuar nesse casamento. Não vire estatística."

A compreensão de que a preservação da vida é a prioridade divina, libertou Janaína e foi o empurrão que precisava para o rompimento com o seu abuso e de seus filhos. O resgate da dignidade abriu caminho para a reconstrução de uma vida com autonomia e estabilidade emocional para ela e seus filhos.


Dados e Construção de uma Memória Crítica


O estudo apresentado apontou números sobre a abrangência do problema em ambientes religiosos no Brasil: 35,1% das mulheres católicas e 42,7% das mulheres evangélicas relatam já ter sofrido algum tipo de agressão.

Ficou evidente a necessidade de promover uma consciência crítica nas comunidades de fé. A religiosidade ou a espiritualidade não deve exigir o sacrifício da própria integridade. Defendeu-se, também, a urgência de redes institucionalizadas de acolhimento — como pastorais e grupos comunitários focados no combate à violência de gênero —, preparadas para acolher sobreviventes sem julgamentos ou exigências de submissão.



Materiais e Próximos Passos


Os slides da apresentação, o artigo de referência e a dissertação completa de Janaína Toscano foram generosamente disponibilizados pela nossa mediadora:




"Seja vivente da sua história sagrada — que sá profana —, mas é a sua história. É a sua vida."Janaína Toscano

O Grupo de Apoio da Ecoar Mulheres reúne-se todo o Sábado, 10h, para construir espaços seguros de escuta, informação e fortalecimento mútuo para mulheres em cidades pequenas. Acompanhe nossas redes para informações sobre as próximas sessões de partilha e temas em debate.



 
 
 

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