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Tecendo Redes Onde o Isolamento Impera: Aprendizados do Trabalho com Mulheres

8 de set.
3 min de leitura

No dia 5 de setembro de 2026, o Grupo de Apoio da Ecoar Mulheres reuniu-se para uma troca poderosa mediada por Laís Carvalho — assistente social e residente em Saúde Coletiva. Com vasta experiência em movimentos sociais e atendimento a mulheres, Laís nos trouxe reflexões sobre como construir redes de proteção em territórios onde o silêncio, a violência institucional e o isolamento costumam prevalecer.  


Enfrentando a Violência Institucional e Criando Novos Fluxos


A conversa começou com o relato de Laís sobre sua atuação no núcleo de atendimento a mulheres dentro de uma delegacia em Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro. Ela identificou que a falta de um processo humanizado gerava uma evasão enorme: muitas vítimas chegavam à delegacia, mas desistiam de registrar a ocorrência devido à burocracia e à falta de acolhimento inicial.  


Para reverter essa revitimização, Laís colaborou para implementar um novo fluxo de trabalho estratégico:  


  • A mulher passou a ser atendida e escutada primeiro pelo serviço social, antes de passar pela formalidade do registro policial.  

  • Essa escuta qualificada preparava os termos do boletim de ocorrência, reduzindo a dor de fazer a mulher repetir a sua história diversas vezes em ambientes sem privacidade e dominados por homens.  

  • A mudança diminuiu as desistências, poupou as vítimas e evitou que as crianças fossem expostas repetidamente aos relatos da violência.  


Ainda assim, o grupo debateu como a continuidade dessas práticas em cidades pequenas esbarra nas constantes trocas de gestão e no clientelismo eleitoral. Concluiu-se que é urgente a necessidade de transformar esses fluxos em processos regulamentados, garantindo que o atendimento humanizado não dependa apenas da boa vontade do secretário de plantão.  


Redes Informais de Apoio: As Primeiras a Chegar



A força transformadora do vínculo comunitário ficou evidente no relato sobre o Centro Cultural Favela Cria, fundado em Teresópolis após as fortes chuvas na região. A instituição atende mais de 300 pessoas com ações voltadas para assistência alimentar, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e atividades culturais, como o hip hop.  


No entanto, a maior lição veio da própria mobilização das moradoras locais:  


  • As redes informais de cuidado costumam chegar muito antes das instituições oficiais.  

  • Laís compartilhou um caso marcante em que vizinhas perceberam sinais de violência doméstica na casa de uma mulher recém-chegada ao bairro.  

  • De forma articulada e consciente, essas moradoras monitoraram a situação, esperaram o momento exato em que o agressor voltou agitado e acionaram a polícia, garantindo a prisão em flagrante e protegendo a vítima e seus filhos.  


Essa atitude heróica comprova que o fortalecimento dos laços de vizinhança e o conhecimento sobre os direitos são as ferramentas mais eficazes para quebrar as estratégias de medo e controle do agressor.  


Novas Fronteiras: Saúde Coletiva e Integração na Bahia


Atualmente atuando em Itabuna, na Bahia, Laís enfrenta novos desafios para aplicar conceitos de saúde coletiva. Ela observou que a universidade local (UESC) muitas vezes opera de forma elitizada, com os campus trancados aos finais de semana e geograficamente distantes da realidade da população.  


Para romper essas barreiras e promover integração real na rede de saúde, ela iniciou projetos comunitários inovadores:  


  • Grupos de Jogatina: Encontros regulares nas unidades de saúde com jogos como dominó, truco e bingo, que acabaram atraindo majoritariamente mulheres idosas, combatendo o abandono e criando novos vínculos de amizade.  


  • Feiras Comunitárias e Minicursos: Projetos para levar produtores locais (de queijos, chocolates e doces) e idosos à universidade, reconectando o saber acadêmico às vivências e necessidades da comunidade.  


A Cura é um Ato de Comunhão


Para encerrar sua fala inspiradora, Laís trouxe uma citação da autora e ativista bell hooks, que resume a essência do nosso grupo:

"Raramente, se é que alguma vez, somos curados isoladamente. A cura é um ato de comunhão."  

Foi um lembrete profundo de que ser uma rede de apoio não requer sempre ações grandiosas ou institucionais. Muitas vezes, tecer uma rede significa enviar uma mensagem de "bom dia", checar como a vizinha está, oferecer uma escuta atenta e estar presente para intervir nas microviolências do cotidiano.


Material utilizado na apresentação:



 
 
 

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